Um Jogo por Semana: Her Story

domingo 17 de janeiro de 2016, por Drih
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Olá! E aqui estamos com o segundo volume da série Um Jogo por Semana (com alguns dias de atraso devido ao cast de Studio Ghibli que eu realmente espero que vocês já tenham escutado). Desta vez, vamos explorar um gênero diferente, que usa recursos muito particulares para contar uma história que já é estranha por si: Her Story. Lançado para plataformas Windows e iOS em 24 de junho de 2015, o título foi idealizado e desenvolvido por Sam Barlow, conhecido por Silent Hill: Origins e Silent Hill: Shattered Memories, sendo o seu primeiro projeto independente.  O cerne do jogo é a narrativa, completamente alinear, e a mecânica força o jogador a construí-la peça a peça, por conta própria. E foi justamente esse estilo de narrativa que lhe rendeu diversas premiações e nomeações.

Apesar de ter causado menos “barulho” que outros jogos lançados em 2015, Her Story chamou a atenção por muitos fatores. O principal deles foi o excelente uso de FMV (full motion video) e a história, alinear e surpreendente. Foi uma surpresa muito agradável (apesar de, talvez, “agradável” não ser a melhor palavra para definir as sensações provocadas por esse título) e ousada, o que torna a descoberta e a resolução do enredo muito mais interessante.

Novamente, a review é livre de spoilers, então mesmo que você não tenha jogado, pode ler sem nenhum problema.

Sinopse

Seu personagem conseguiu acesso a um terminal de polícia de 1994, que serve como banco de dados para uma série de depoimentos registrados em vídeo de uma mulher cujo marido está desaparecido. Neste terminal, é possível buscar pelos fragmentos de vídeo digitando numa caixa de busca palavras que podem ter sido ditas pela mulher entrevistada. É possível editar os marcadores do vídeo, e organizá-los numa sequência que o jogador considerar lógica. Claro, há uma série de limitações (número de vídeos exibidos por busca, qualidade do vídeo, etc), considerando que, afinal de contas, é um terminal de 1994. Não existe “alerta” de quando algo importante é descoberto: cabe ao jogador, da sua própria forma, registrar o que considerar importante, pescar novas palavras-chave dos vídeos e , a partir daí, buscar completar as peças de um complexo e cada vez mais sinistro quebra-cabeça que os depoimentos dela começam a desenrolar.

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Mecânica, gráficos, controles, trilha sonora

O próprio Sam Barlow disse, na página oficial do jogo, que “se você consegue usar o Google, você consegue jogar Her Story”. E ele não está errado: o jogo tem uma mecânica muito simples de aprender e dominar. Basta que você procure palavras-chave na caixa de busca, que então irá procurar por essas palavras entre os depoimentos da mulher. Mas dominar o aspecto técnico do jogo, por si, não é suficiente para dominar a história e conhecer o seu panorama final. Gosto de pensar que a melhor “mecânica” de Her Story é um bloquinho de notas e uma caneta: não basta apenas ver os vídeos, é necessário prestar atenção, buscar por pistas, novas palavras-chave que irão revelar novos fragmentos da história.

Graficamente, o jogo é… nostálgico, na falta de palavra melhor. Quem não ama um bom joguinho de Reverse em resolução 800 x 600 num monitor de tubo com a imagem oscilando e reflexos levemente fantasmagóricos do ambiente ao redor? Ou um registro estremecido e levemente desfocado de uma imagem de fita VHS? O jogo constrói uma ambiência muito boa. É um terminal antigo que te convence que é antigo. E o fato de ele “transformar” o seu computador nessa máquina velha e empoeirada torna a imersão muito mais intensa e profunda. Os reflexos, a oscilação da lâmpada da sala, tudo contribui nessa ambiência. Com o tempo, porém, a curvatura da tela torna a jogabilidade desconfortável e um pouco agressiva aos olhos (é possível ativar o anti-alias quando isso acontecer).

A trilha sonora é simples e muito discreta, com oito faixas do compositor Chris Zabriskie (disponíveis por Creative Commons). Nas palavras de Barlow, a escolha dessas faixas específicas destaca “a separação entre o mundo ‘falso’ do computador e o mundo do jogo”. Em termos sonoros, porém, deixo o destaque para os efeitos: o som das teclas, a oscilação da tela, o som da rua, algumas sirenes: muito discretos, colocados de forma a não serem percebidos ou se destacarem mas aumentando a imersão e o realismo daquele mundo.

As cenas em FMV foram muito bem executadas. Admito que levou um tempo até que me convencessem de que não eram vídeos de um caso real, mas sim filmagens em estúdio com uma atriz (no caso, a talentosa Viva Seifert, ginasta e musicista, e cuja performance nesse jogo lhe rendeu um prêmio de Melhor Performance no Game Awards de 2015). Mesmo assim, os vídeos em si deixam poucas respostas por conta própria: não sabemos o que é perguntado à protagonista, apenas as respostas são registradas, em vídeos muitas vezes muito fragmentados. É possível manter uma certa “sequência” do que é dito por um terminal no próprio jogo, mas isso é muito menos útil do que parece.

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Impressões

Começo dizendo que Her Story não é um jogo para todos. Eu não quero cair aqui naquela discussão já muito longa e sem solução de “o que define um jogo”. Tanto é que uma boa porção das reviews negativas da Steam dizem com todas as letras que não se trata de um jogo, ou que a história funcionaria melhor num livro ou filme. Para mim, o grande charme é exatamente o fato de não haver uma sequência óbvia e depender do jogador colocar as peças em seus devidos lugares. Mas consigo entender por que esse projeto não é uma unanimidade, e porque algumas pessoas ficaram desapontadas.

Mesmo assim, para quem, como eu, aprecia uma boa história e aprecia ainda mais poder interagir com ela, essa pode ser uma excelente pedida. É muito interessante você se sentir no papel de detetive, confiar na intuição, buscar pistas, tentar encontrar em cada vídeo um gancho para o seguinte, construir uma história aos poucos, se surpreender com ela.É um desafio de atenção, um desafio de dedução e, talvez, até de intuição. Não demora muito para algo parecer fora do lugar, mesmo que por si mesmas as informações pareçam bem sólidas. Claro, não vou dizer aqui que é a história mais genial e surpreendente de todos os tempos, mas ela é intrigante e surpreendente na medida certa.

Outro fator interessante é a autonomia que o jogador tem. Você cria técnicas para manter registro das coisas. Sejam tags em determinados vídeos, sejam anotações, seja puramente confiar na memória. Eventualmente, quando você já passou por uma certa quantidade de vídeos, existem sinais no jogo que dão a entender que há uma “conclusão”, mas quem de fato diz se a história está finalizada ou não é o próprio jogador. Gosto dessa autonomia, mas entendo que ela só funciona caso o próprio jogador a faça funcionar. É perfeitamente possível “fechar” o jogo passando cegamente por todos os vídeos, mas é o mesmo que deixar um filme rodando para uma sala vazia: ele existe, mas para ninguém.

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Considerações finais

Por ser um título tão curto e carregado de informação (informação esta que é vital), é muito difícil dizer algo sem dar spoilers, mas vamos tentar. Para mim, Her Story foi uma experiência diferente de tudo o que eu já joguei, e isso por si já vale a atenção do público. O uso de FMV foi muito coerente e muito inteligente, que apostou na simplicidade aliada à qualidade de atuação de Viva Seifert. E ao permitir que o usuário dite o ritmo e o rumo da investigação, torna uma experiência única para cada jogador.

Encerro essa review recomendando muito que vocês joguem. Apesar de o fator replay ser baixo, é um jogo barato e muito bem executado, com uma mecânica e narrativa que conversam entre si e se complementam, construindo uma experiência nova, intrigante e muito satisfatória. Peço desculpas pela falta de informações, mas a grande graça é descobrir por conta própria. E já que é um jogo de pistas, não serei eu a dar as primeiras dicas a vocês, haha.

Onde comprar

Steam

AppStore

 

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Categorias: Coluna da Drih, Colunas

Comentários

Comentários

  • http://japindica.blogspot.com/ rafataira

    não sei se topa. Faz um video sobre mr. Bree. E um jogo brasileiro.