Sobre street art, manifestações e ratos: “Guerra e Spray” (Banksy)

quinta-feira 20 de junho de 2013, por Drih
banksy3 - D

Você passa pelas ruas todos os dias. Provavelmente sem prestar muita atenção à sua volta. É um caminho já conhecido, monótono. Não há nada em especial para chamar a atenção, certo? É a rua. Um espaço marginalizado, um espaço comum e sem novidades.

Até o momento em que você, por acaso, olha por mais de dois segundos para uma certa parede, e encontra algo que não estava lá. Algo intrigante, a princípio. Um painel. Uma imagem que parece conhecida, mas em que há algo que não se encaixa. Uma imagem debochada, destoante, ácida. Pode ser uma linda garotinha abraçada a uma bomba, ou um guarda pichando a parede. Ou ratos, sempre presentes em grandes cidades. E de repente a rua deixa de ser tão trivial. É nisso que se baseia o livro Guerra e Spray, uma espécie de “antologia” do trabalho do artista de rua Banksy: tudo deixa de ser trivial, e passa a ser incrivelmente significativo.

O autor e sua obra

A identidade do autor ainda é um mistério. Sabe-se que ele nasceu em Bristol, em 1974 (ou 1975), e que seus trabalhos se concentram na Inglaterra, apesar de estarem espalhados por outras cidades do mundo também. Seu trabalho vai além do grafite, sendo ele também pintor de telas e diretor de cinema (no caso, o documentário Exit Through the Gift Shop, seu primeiro trabalho, que lhe valeu uma indicação ao Oscar de 2011 por Melhor Documentário.)

Versátil, seu trabalho vai além dos muros das cidades britânicas. Ele já realizou trabalhos em Barcelona, Paris, Sydney, New Orleans, Palestina. Grafitou de muros de ruas a monumentos, de jaulas de animais de zoológico a vacas (sim, vacas). Com “esculturas” de cones, bonecos representando os presos de Guantánamo colocados em plena Disneyland, e pinturas “infiltradas” em museus, o trabalho de Banksy é subversivo, debochado, anárquico. E lindo.

O livro mostra diversos trabalhos dele, mas a princípio não segue uma lógica óbvia. E já começa cutucando, com a frase “O copyright é para perdedores.” Depois, são mostradas algumas imagens de trabalhos dele nas ruas de Londres. O texto seguinte resume um pouco o conceito do livro, que é o de defender o grafite como forma legítima de arte, e não como “poluição visual”. Para ele, a verdadeira poluição visual é aquele provocada pelas propagandas, enfiadas garganta abaixo das pessoas o tempo todo, e o grafite é uma forma de resistência contra eles, uma forma de fazer o mundo um lugar mais bonito.

A partir daí, o texto do livro se divide entre histórias e reflexões. Através deles, é possível conhecer um pouco mais as motivações do artista. Banksy é um provocador, e seu trabalho tem a intenção de causar choque o tempo todo. Muitos de seus grafites se tornaram icônicos, graças às poderosas mensagens incluídas neles. É o caso da primeira imagem da matéria, que vocês certamente já viram em outros lugares. São imagens que desconcertam, e que forçam a uma reflexão.

Banksy também se vale da paródia para passar sua mensagem. Aqui vale a pena falar de outro artista, chamado Marcel Duchamp. Ele foi um artista do começo do século, que causou furor ao incluir um mictório numa exposição e chamá-lo de arte (dentro da proposta de ready-made, objetos prontos que se “tornavam” arte), e por, em 1919, lançar a obra LHOOQ (que significa “Elle a chaud au cul”, literalmente, “ela tem fogo no rabo”). O que era essa obra? Nada mais do que uma Monalisa com um pomo-de-adão, bigode e barbicha. Muitas pessoas relacionam o trabalho de Banksy ao trabalho de Duchamp, porque ambos ironizam a arte e a questionam profundamente.

Ele também faz uma crítica pesada à guerra, à violência, às determinações capitalistas e a forma como elas determinam o modo de vida das pessoas, bem como ao sistema que as legitima. Os fragmentos de texto espalhados pelo livro mostram isso muito bem:

“Eu gosto de pensar que tenho a coragem de me levantar anonimamente numa democracia ocidental e clamar por coisas nas quais ninguém mais acredita – como paz e justiça e liberdade.”

Suas pinturas mostram soldados armados com rostos sorridentes. Crianças vendendo armas, abraçadas a bombas, helicópteros de guerra com laços cor-de-rosa. É a ridicularização da violência, não numa forma que diminua seu impacto, mas num sentido de mostrar o quão estúpido isso pode ser. Ao debochar da violência, ele a combate, à sua própria forma. Da mesma maneira, ao debochar das autoridades, mostrando os guardas reais britânicos cheirando cocaína, pichando paredes, ou simplesmente se beijando, ele também demonstra que não os leva a sério como força de defesa, e os questiona.

Outras intervenções que ficaram famosas foram pinturas dele nos museus. Não que um museu tenha se rendido à street art, mas pinturas que ele literalmente preparou, pendurou na parede do museu e esperou. Ele chegou a fazer isso no museu do Louvre, onde sua tela durou uma hora antes de ser retirada pela segurança. Essas pinturas foram compradas em sebos e lojas, sem identificação, e “pichadas”, alteradas por ele. Mais uma vez, surge a comparação com Duchamp: por ele ter colocado esses quadros lá, eles são “menos” arte? Sinceramente, acho que não. Trata-se apenas de uma outra forma de arte, menos preocupada com a beleza ou sentimentalismo e mais crítica e debochada.

Pessoalmente, minha série favorita é a dos ratos. Não pelos ratos em si, mas pela justificativa dela. “Se você é sujo, insignificante e mal-amado, ratos são o modelo de comportamento fundamental.” Os ratos resumem o trabalho de Banksy e o ironizam. Afinal, se formos pensar bem, a street art é o “rato” das artes, considerada puro vandalismo por muitos, menosprezada por outros tantos, e ainda assim resistindo a todas as dificuldades.  E é uma das imagens dessa série que tem a frase mais forte e provocativa do trabalho dele.

Em resumo, o livro Guerra e Spray é sensacional. Admito, não o teria lido se não fosse por uma disciplina da faculdade, cujo trabalho final era uma resenha da obra. Mas fico feliz por essa resenha ter me levado a conhecer um trabalho tão rico, diverso e intenso como o de Banksy. Ao final, ele dá dez dicas para se tornar um artista de grafite, e é de certa forma tentador. O livro inspira a tomar uma atitude e resistir a tantas agressões às quais somos expostos todos os dias. E, mais do que isso, o livro quebra preconceitos. A street art é muito bela, muito forte e muito legítima, e ao contrário das ditas “belas” artes, está ao alcance de todos. A rua é livre, então a arte nela se torna ainda mais importante.

Enfim, fica a sugestão. Leiam “Guerra e Spray”, e conheçam o trabalho de Banksy. Para quem quiser saber mais, o site oficial dele mostra todas as obras, divididas por local, bem como algumas informações sobre o trabalho dele em si. Vale a pena conferir, sem dúvida. Muito obrigada por lerem, espero que tenham gostado, e até mais.

===

P.S.: obviamente, o tema não foi escolhido por acaso. O motivo foi mostrar que existe um milhão de formas de resistência e luta por um ideia, e a arte é definitivamente uma delas.

Compartilhe:

Categorias: Coluna da Drih, Editorial

Comentários

Comentários