Coluna: Da Arma de Chekhov ao Red Herring

terça-feira 18 de setembro de 2012, por Seiji
Arma de Chekhov
Um dos recursos de roteiro mais úteis, interessante e que às vezes não prestamos atenção é a Arma de Chekhov. Criado pelo escritor russo de teatro Anton Chekhov, essa expressão surgiu de um princípio defendido pelo autor que basicamente diz que se você apresentar uma arma carregada no primeiro ato de uma peça, ela tem que atirar em um ato posterior. Assim, caso a arma apresentada não atire ela nem deveria ter sido mostrada.

Uma das formas de interpretar o princípio defendido por Chekhov é: qualquer objeto apresentado inicialmente com um mínimo de destaque pode ser relevante a ponto de mudar a história da trama. Logo, o conceito da Arma de Chekhov indica que certos detalhes não devem ser apresentados à toa.

Com o desenrolar da trama e os personagens mostrando o drama e os conflitos que giram o enredo, em certo momento acontecem os momentos vitais da história. Se a dependência dessa cena depende muito de um item e caso o objeto não foi apresentado antes, ele se torna um Deus Ex Machina. Por outro lado, se o objeto foi apresentado inicialmente, então aí surge a tal Arma de Chekhok. Logo, como uma distração bem encaixada e planejada, esse objeto é apresentado de forma até relevante, mas forçado a ser esquecido pelo autor porque o objeto não é mais citado nos demais atos, somente retornado com uma presença triunfal.

O filme Um Sonho de Liberdade mostra bem o uso de uma Arma de Checkov, pois o martelo de geólogo, usado pelo protagonista Dufresne, é algo apresentado inicialmente de forma inocente. Usado apenas para o Hobby do protagonista que é extrair e apreciar pedras geológicas, ela se torna um item extremamente vital para a parte final do filme, culminando com a sua fuga. Outros lugares que vemos Armas de Chekhov são em Aracnofobia (arma de pregos), De Volta para o Futuro (panfleto com informações da Torre do Relógio danificada), filmes do 007 (todos os itens apresentados pelo Q).

Dessa maneira, a Arma de Chekhov mostra o quão atentos os espectadores estão quando apreciando uma obra tipo um filme, um livro, uma peça de teatro. Isso pode gerar um efeito curioso, pois como em um mistério, os leitores/espectadores podem agir como detetives. Ao observar as pistas que são dadas, no caso qualquer objeto, os leitores/espectadores podem interpretar alguns desses itens como sendo potenciais Armas de Chekhov, e isso instiga as pessoas a continuarem apreciando a obra.

Um dos princípios sobre o recurso é que o autor não gaste muito tempo na descrição do item, tendo que apresentar de forma rápida, sútil e com um mínimo de detalhes. Logicamente, a idéia é não mostrar de forma tão explícita que o objeto será extremamente útil no futuro. No caso, seria apenas um acessório apresentado no momento. Assim, é interessante que o autor tente evitar dar mais pistas que o necessário e que leve o espectador a crer isso como Arma de Chekhov e consequentemente tirar a graça da história.

Por outro lado, existem pessoas mais atentas que ficam caçando e criando teorias sobre a representatividade de certos objetos irrelevantes apresentados nas tramas. Em algumas séries tipo LOST, Harry Potter e Arquivo X, inúmeros objetos aparecem assim e os espectadores brincando de detetives tentam interlaçar a existência desses itens com a trama em si. Desse jeito, inúmeras teorias vão surgindo na cabeça dos fãs, tentando antecipar os próximos acontecimentos da história. Todavia, como um joguete existe um recurso que brinca com a atenção do espectador, que no caso seria o Red Herring.

Pois é, para os mais fanáticos por pistas, a presença do Red Herring (erroneamente traduzido como Arenque Vermelho) é uma dor de cabeça. Esse recurso pode ser descrito como distrair ou manipular a atenção, no caso, apresentar um item e na verdade ele não ter a importância pensada inicialmente pelo público. Usado como pista falsa, ele muitas vezes se torna uma necessidade dentro do contexto da história, pois conduz o espectador a uma outra perspectiva, geralmente pensada pelo autor.


Dessa forma, para quem acompanha várias séries e se depararam em caminhos sem saídas provocadas por pistas falsas, essas pessoas foram manipuladas pelo Red Herring. Ler, interpretar, e prever passos tudo pode ser em vão, isso se o item despretencioso apresentado se torna mesmo inútil. Por isso, muitas vezes o Red Herring é denominado como um contra ponto ao princípio defendido por Chekhov da importância final e possui características totalmente opostas a um Deus Ex Machina, pois é algo que já foi apresentado na trama, mas que não tem a importância da conclusão. Na verdade, o Red Herring tem um propósito relevante em qualquer tipo de trama: conduz o espectador a uma outra direção, manipulando-o para longe da verdade e fazendo-os esquecer da verdadeira Arma de Chekhov. Com certeza, perfeito para ser usado principalmente em histórias de mistérios e suspenses.

Pois é, Arma de Chekhov, Red Herring, Deus Ex Machina, todos recursos de roteiro que servem para gerar soluções, e nem por isso reconhecidas pelo público geral. São táticas bem usadas em roteiros, alguns usados sabiamente outros nem tanto, mas mesmo assim possuem uma contribuição valiosa.

Espero que você tenha curtido o texto e se você conhece mais alguns exemplos de Arma de Chekhov e Red Herring, então comente também. Grato e até a próxima vez ^^

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Categorias: Coluna do Seiji, Editorial

Comentários

Comentários

  • http://japindica.blogspot.com/ rafataira

    Ue ma não tinha um cara em star trek chamado chekov? Fiquei confuso agora. Pensei que a arma de chekov fosse referencia a esse personagem.